19 Junho 2009

O caso do diploma

Por Léo Alves

Enquanto não concluo meu post (estou tentando assimiliar o fato) sobre a decisão - equivocada - do STF sobre a eliminação do diploma para exercer a profissão de jornalismo republico a coluna do Alberto Dines, no Observatório da Imprensa (http://www.observatoriodaimprensa.com.br/):


DIPLOMA DESNECESSÁRIO
Uma decisão danosa

Por Alberto Dines

Difícil avaliar o que é mais danoso: a crítica do presidente Lula à imprensa por conta das revelações sobre o comportamento do senador José Sarney (PMDB-AP) ou a decisão do Supremo Tribunal de eliminar a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. São casos diferentes, porém igualmente prejudiciais à fluência do processo informativo. E exibem a mesma tendência para o sofisma, a ilusão da lógica.

Fiquemos com a decisão do STF. Embora irreversível, não é necessariamente a mais correta, nem a mais eficaz. A maioria do plenário seguiu o voto do presidente da Corte, Gilmar Mendes, relator do processo, que se aferrou à velha alegação de que a obrigatoriedade do diploma de jornalista fere a isonomia e a liberdade de expressão garantida pela Constituição.

Para derrubar esta argumentação basta um pequeno exercício estatístico: na quarta-feira em que a decisão foi tomada, nas edições dos três jornalões, dos 29 artigos regulares e assinados, apenas 18 eram de autoria de jornalistas profissionais, os 11 restantes eram de autoria de não-jornalistas. Esta proporção 60% a 40% é bastante razoável e revela que o sistema vigente de obrigatoriedade do diploma de jornalismo não discrimina colaboradores oriundos de outras profissões.

No seu relatório, o ministro Gilmar Mendes também tenta contestar a afirmação de que profissionais formados em jornalismo comportam-se de forma mais responsável e menos abusiva. Data vênia, o ministro-presidente da Suprema Corte está redondamente enganado: nas escolas de jornalismo os futuros profissionais são treinados por professores de ética e legislação e sabem perfeitamente até onde podem ir.

É por isso que na Europa e Estados Unidos onde não existe a obrigatoriedade do diploma de jornalismo, são as empresas jornalisticas que preferem os profissionais formados em jornalismo, justamente para não correrem o risco de serem processadas e punidas com pesadas indenizações em ações por danos morais.

O STF errou tanto no caso da derrubada total da Lei de Imprensa como no caso do diploma. E foi induzido pela mesma miopia.

18 Maio 2009

Quase famosos

Por Daniel Brito

É compreensível que as pessoas queiram mostrar para amigos, colegas, colegas dos colegas, parentes, ou quem quer que seja, que é um profissional produtivo e está sempre ocupado. Mas daí a transformar o Orkut em diário de trabalho, dá um tempo, né?

Estou falando dos nossos coleguinhas (talvez até um dos autores deste blog, vai saber) que recheam o orkut com fotos do ambiente de trabalho. Aquela galera que se orgulha em postar uma imagem empunhando microfone de TV, fazendo cara de sério enquanto alguém famoso (ou quase famoso) dá entrevista, ou dando uma de tiete mesmo, na cara dura, com alguém famoso (ou quase famoso).

Para mim, todas aquelas fotos de jornalista em ação no orkut são puro deslumbre e só comprovam a tese de que cada vez mais gente entra na profissão para aparecer e não para prestar um serviço.

Pode falar que é amor ao que faz, pode dizer aquela balela de 'o trabalho dignifica', mas porque será que esse mal atinge em cheio aos jornalistas?

Você, usário do orkut, já viu algum neurocirurgião postar uma foto dele na rede durante um processo cirúrgico? Ou um engenheiro postar um cáclulo de matemática inexata e se gabar de ter completado a questão? Tá, tudo bem, vamos facilitar: um nutricionista, um tabelião, um oficial de justiça, um motorista de ônibus, um arquiteto...qualquer coisa!

Mas não. Jornalista tem que propagandear seus passos:

- No dia em que o presidente Lula respondeu minha pergunta na coletiva;
- Vida de jornalista é fogo: acidente da TAM. Esse dia foi demais!;
- Eu, fazendo a passagem;
- Entrevistando Tonho da Venta, em Sucupira.

Talvez minha crítica possa soar rancorosa, principalmente porque ela é direcionada não só aos jornalistas 'aparecidos', mas ao próprio Orkut. Sim, porque no Orkut ninguém é triste, depressivo, infeliz.

Ninguém coloca uma foto lá com umas legendas profundas, tipo:

- Euzinha, no dia que fui demitida;
- Esse dia foi triste, quando descobri que minha tia avó tinha câncer no cólo do útero;
- Ai como tô horrível nesta foto;
- Odeio gente que sorri em foto;

Bom, dá para passar o resto da vida sugerindo anti-legendas para o Orkut.

Mas para mim, não adianta vir com essa idéia de que jornalista tem de mostrar seu trabalho. É, mas não no orkut.

Bueno, para não ser injusto, deixa eu citar algumas situações que não merecem a crítica deste post. Como a história do web designer que conheci. Ele colocou a foto dele em situações absurdas e postou no orkut. Um lance criativo e diferente, e até auto-crítico, porque ele colocou, propositadamente, sua imagem da maneira mais mal feita possível, para brincar com o próprio trabalho.

E tem a história do maluco que cobre política. Ele recolheu umas seis fotos em que apareceu de papagaio de pirata nos jornais com cara de monstro, olhos semi cerrados ou nitidamente perdido, e colocou no orkut. Em metade delas, não dá nem para ver que o cara tá na foto mesmo. Mas foi uma idéia legal. Sutilmente informativo.

Ou o fotógrafo que encheu seus álbuns com fotos de jornalistas trabalhando. É uma espécie de 'arte de fazer um jornal diário'. Não havia ninguém em maior destaque, eram imagens históricas em momentos importantes, como a Assembléia Constituinte de 1988, os caras-pintadas de 1992, morte de Senna, 1994, eleição de Lula, entrevista com o treinador da Seleção Brasileira e por aí seguia o álbum.

Também não condeno as fotos com companheiros de trabalho. Motorista da empresa, cinegrafista, fotógrafo...são companheiros de trabalho mas podem ser amigos, portanto, têm motivos para entrar nos sempre felizes álbuns do Orkut.

Bom, preciso confessar, também, que eu mesmo já caí nesta armadilha do deslumbre, uns três anos atrás. Era uma ocasião super especial, cobertura de um mega evento.

Mas para não ficar como o 'aparecido' da história, criei um fotoblog e ainda coloquei algumas histórias aqui no FIlhos da Pauta, que é um espaço totalmente diferente do Orkut, porque é voltado para o jornalismo e ...nao tem mais que 30 acessos únicos diários.

08 Maio 2009

A mídia e as bravatas

Pedro Henrique Freire

Não gosto de políticos. Por um simples motivo: eles mentem. Faz parte da essência política, de sua desenvoltura. Mentir, fingir, teatralizar é a maneira que eles tem de sobreviver. Esqueçam outra alternativa. Não adianta tentar ser um político diferente. Se insistir nisso, for sincero demais e tentar quebrar paradigmas de sopetão, será engolido.

Exemplo recente: deputado Silvio Costa (PMN-PE). No escândalo das passagens do Senado, defendeu as viagens para suas mulheres. Tudo pelo bem do seu casamento. Fez isso abertamente. Assim como o maranhense Pedro Fernandes (PTB), que discursou na Câmara admitindo que deu passagem a quem lhe pediu.

Conheço os dois do tempo em que cobri Congresso Nacional, em Brasília. Costa sempre foi um dos nomes mais polêmicos do baixo clero. Tudo porque sempre tentou falar a verdade, admitindo aquilo que os outros deputados não teriam coragem de falar em público.

Fernandes é mais afeito a articulações. Tem paciência, com a imprensa e com os pares. Mas também defende posições firmes e polêmicas como o nepotismo (ele tinha familiares no gabinete, os considerava competentes e assíduos e, portanto, não vê mal nenhum em empregar parentes) e a flexibilização no uso das passagens.

No tititi mais recente da Câmara, a dupla resolveu falar a verdade. Não deu outra. Foi para o paredão, com direito a segundos no Jornal Nacional. A maioria dos deputados, que defende o uso indiscriminado - ou flexibilizado - de passagens como os dois ai, ficou na moita, fugindo da imprensa, evitando comentar o assunto. Mas eles estavam estufando o peito e sendo sinceros.

Confesso. Por aquilo, admirei-os porque tiveram coragem de dizer o que a maioria ali nunca teve nem nunca terá. Admirei-os não pela forma, mas pelo procedimento. Foram sinceros. Ao acompanhar a repercussão, vi logo que iriam se arrepender. Não deu outra. Costa mudou de idéia sobre levar a mulher em todo voo que pegar. E Fernandes disse que foi mal interpretado.

Pra mim, fica a pergunta: e a mídia, ajudou a moralizá-los ou a continuarem mentindo e omitindo suas opiniões?

30 Abril 2009

Na onda do linfoma da Dilma

Pedro Henrique Freire

Qualquer campanha quer sensibilizar para convencer. Seja eleitoral, ambiental, comercial. Nossos políticos, sabidos do jeito que são, se utilizam por vezes de ferramentas que balançam na corda bamba do antiético para sensibilizar e, no final, ganhar votos. Uma dessas artimanhas irresponsável, porém, eficiente, é utilizar o sofrimento humano como cabo eleitoral.

Conheço um deputado que se elegeu com pouco mais de 20 anos de idade após seu pai ter sido assassinado a tiros no meio de uma cidade no interior do Maranhão. O pai, um político famoso. Ele, um rapazote que mal sabia falar (até hoje não sabe direito). Após o crime, tirou umas fotos e colocou seu número nas urnas, pedindo ajuda para fazer a justiça pelo pai morto. Resultado: foi um dos federais mais votados em 2006.

Na reeleição de 1998, a hoje (pela terceira vez) governadora do Maranhão, Roseana Sarney, mal fez campanha. Estava doente. Curava-se de um câncer (outro). Na época, não saiu às urnas, não pediu votos esbarrando ou cumprimentando eleitores. Bastou aparecer na televisão, envolta em uma boa campanha de marketing que lhe apontava como uma "guerreira", sofrida, lutando para sobreviver e para "melhorar a vida do povo maranhense". Resultado: levou no primeiro turno, de lavada.

Agora, aparece no Brasil a pré-candidata preferida do Lula, Dilma Rousseff. Está com câncer linfático. Coisa sério, mas nem tanto, se comparada ao do seu colega de república José Alencar, o vice de Lula. Como descobriu no começo, o linfoma dificilmente irá matá-la. Mas vai ajudá-la a ganhar alguns votos.

Sabida do jeito que é, tratou de divulgar a doença para sensibilizar a mídia e o eleitorado. Tudo com ajuda do presidente Lula. Está conseguindo. Sobretudo porque conta com a ingenuidade dos meios de comunicação. Podem reparar. Todos caíram nas graça do linfoma da Dilma. Todos os dias falam nisso na TV, nas rádios e jornais. E perguntam ao Lula. E perguntam aos ministros. Até o Dirceu sentiu pena da sua substituta na Casa Civil.

Deram audiência a sua doença e estão ajudando a elegê-la em 2010. Coincidência ou não, o Data Folha saiu às ruas dois dias depois do Brasil saber que a "madrinha do PAC, preferida do Lula e pré-candidata à presidência" estava com câncer.

24 Abril 2009

Retroceder nunca. Render-se, jamais!

Por Daniel Brito

Isso acontece muito em TV. A produção tem um super trabalho de fazer uma pauta bem amarradinha para o repórter só finalizar 'para as redes'. Mas alguma coisa no local não está conforme a previsão do produtor. É o suficiente para o preguiçoso ligar para a redação derrubando tudo:

- Olha, o entrevistado disse que tá com a voz rouca e quer que eu fale com o sub-gerente. Vou derrubar a pauta, viu?

Do outro lado, o pobre do produtor se esguela, educadamente, para que o repórter tenha bom senso e deixe de preguiça.

- Não, com o sub-gerente também dá. Pega as informações do gerente e faz a sonora com o sub, não tem problema...

O repórter já fica chateado achando que sabe mais que todo mundo e faz mesmo assim para não perder a razão.

É muito fácil identificar um derrubador de pautas. Aliás, é mais fácil ainda derrubar pautas. Quem nunca derrubou uma pauta que atire a primeira pauta.

Tudo é motivo para desmoroná-la:

Rouquidão, falta de tempo, muito barulho, perigo no local, dor de dente, coqueluche, têtano, difeteria...

Eu mesmo tenho vergonha de dizer que não consegui a informação pedida pelo chefe. Tenho mesmo. Não sou o maior exemplo de profissional, mas, né... Se eu chegar ao ponto de derrubar uma matéria foi porque eu tentei por todos os lados. Falei com o gerente, o sub, o faxineiro, a esposa do faxineiro, o ex-funcionário da empresa, o ex-vizinho do bisneto do fundador da empresa. Aliás, faço até um pouco de marketing pessoal quando vejo que as coisas não tão dando certo e, depois de determinado momento na apuração, começo a informar o editor passo a passo do processo. Até para não ser acusado injustamente.

Certa vez, me pediram para falar com o filho de um cara famoso que havia sido internado após uma overdose. Não fazia a mínima idéia de encontrar o garoto. Liguei para os ex-companheiros de trabalho do drogado, apurei alguma coisa para compor o texto. Liguei para o trabalho do filho, mas não obtive informações. Uma alma bondosa veio do outro canto da redaçào e me passou o telefone do garoto (garoto entre aspas).

Depois de 87 ligações em vão (Claro informa, este número não existe), desisti e avisei que tinha só o miolo do texto. O abre, o depoimento do filho, não havia conseguido e pedi para o chefe ligar naquele número para comprovar que ele não batia bem da cuca (ele que eu digo é o número). O editor entendeu e me pediu apenas dois singelos parágrafos sobre o fato. Alguém se contorceu para tentar falar com o rapaz...e não conseguiu também.

O ato de desconstruir pautas com justificativas tão ridículas gera uma cultura muito inconveniente para as demais gerações. Todo mundo já ouviu um repórter reclamar:

- Meu jornal é o único em que o editor não confia na palavra do repórter.

Certamente porque o reportareado de décadas atrás deve ter mentido tanto e levado tanto furo por causa desse jeito acomodado de ser, que os chefes perderam a confiança em seus subordinados. E a gente sabe que confiança só se dá uma vez, não é verdade?

Bom, graças aos preguiçosos que surgiu essa vertente tào óbvia do jornalismo: o investigativo.

Ora, se é jornalismo, é porque teve apuração.

Se teve apuração, não deixa de ser uma espécie de investigação.

Acontece que tem tanta gente engolindo o oficial - aquela meia verdade (ou meia mentira) que vem nos releases - que o ato de futucar um pouquinho mais a fonte para descobrir o que está por trás daquele texto oficial virou 'jornalismo investigativo'. Engolir o oficial é uma maneira de não derrubar a pauta não deixa de ser uma improvidência.

Ou seja, os mal apurados, os preguiçosos, os parasitas de redações deram aos interessados o direito de se enquadrar no jornalismo investigativo.

Mas é claro que o jornalismo investigativo é muito mais do que correr atrás das notícias fáceis mas disfarçadas. Mas isso é assunto para outro post...Deus sabe lá quando!

16 Março 2009

Testemunhas da história

Por Léo Alves

Era dia 17 de fevereiro quase 20h30. Entro na sala 20 minutos atrasado para da aula de Técnica de Entrevista e Reportagem. A maioria dos alunos está com o fone no ouvido. Todos acompanham pelo rádio o julgamento pelo TSE dos embargos declaratórios do então governador Cássio Cunha Lima.

Também acompanhava o julgamento, mas pela tevê, motivo que me fez chegar atrasado à universidade. Era o dia do voto do ministro Arnaldo Versiani, que tinha pedido vistas no processo de cassação do governador. Naquela noite o destino político da Paraíba poderia ser decidido com a confirmação ou não da cassação do mandato de Cássio.

Por mais que me esforçasse não conseguia envolver os alunos (nem eu conseguia) com o assunto da aula. Vez por outra surgia um comentário, uma parcial sobre os votos dos ministros que acabaram por confirmar (por unanimidade) a perda do mandato do governador. No meio da votação, sem clima para a aula comentei:

- Nós estamos acompanhando um momento histórico. Independente do resultado do julgamento. Nós jornalistas somos historiadores que escrevem a história na medida em que ela vai acontecendo.

- Professor, que interessante. Nunca tinha olhado por esse ângulo. Essa frase é sua? , questionou uma aluna.

- Éééé...não sei acho que sim. Não, acho que não. Bem. O importante é termos a noção que estamos escrevendo para a história porque daqui a dez, vinte anos quando alguém for pesquisar sobre essa cassação vai se basear no que os jornais escreveram, no que nós escrevemos. Daí a nossa responsabilidade.

Fiquei confuso em responder se a frase era minha porque no fundo eu apenas resumi o que o grande Pedro já tinha abordado, mesmo que de forma menos específica, no post Sobre a Verdade.

Se olharmos para o futuro teremos uma pequena noção de que como será difícil saber se os registros dos jornais são verdadeiros. Não diria que são mentirosos. Mas é comum ver duas interpretações para a mesma notícia. E lógico que isso está relacionado a fatos políticos. Se o jornal é ligado a um grupo político ele vai trazer a notícia (de certa forma) beneficiando seu aliado. Se o jornal não é a notícia vai trazer tudo que é de ruim relacionado ao assunto.

Já imaginou como será alguém que não viveu a história saber onde (em qual jornal) está a verdade?

O trabalho do jornalista vai além de escrever notícias. Ele escreve também a história.

11 Março 2009

Dinheiro na internet

Por Léo Alves

Tenho um texto pronto, mas decidi não publicá-lo agora (será o próximo) porque nos comentários do post anterior o grande Mário levantou uma questão sobre a internet, que é o fato de que ninguém (ou quase ninguém) saber ganhar dinheiro com jornalismo na rede. Quando li o texto a seguir (na internet, lógico) achei que se encaixa no tema e pode ser uma saída para fazer dinheiro na net. O texto é de Carlos Castilho, publicado no Observatório da Imprensa:

Projeto inovador testa fórmula para a sustentabilidade financeira no jornalismo online

Carlos Castilho em 1/3/2009


Uma despretensiosa experiência de financiamento de páginas noticiosas na Web começa a atrair a atenção tanto dos weblogs individuais como dos grandes jornais que publicam notícias na internet.

Trata-se do projeto
Kachingle, cuja meta é criar uma ponte entre a cultura da gratuidade, predominante entre os internautas, e a sobrevivência financeira, tanto de páginas individuais como de sites de empresas jornalisticas de grande porte.

A busca da sustenatibilidade financeira desafia as cabeças pensantes da internet porque, até agora, quase todas as experiências de pagamento de notícias online não deram certo e tiveram que ser abandonadas.

O Kachingle (uma palavra que não está nos dicionários) cria um sistema onde o usuário abre uma conta em dinheiro e vai distribuindo pagamentos pelos sites que visita conforme suas preferências e necessidades. Os pagamentos são feitos quando o usuário clica no ícone do projeto na página visitada. O valor é imediatamente abatido da conta.

A primeira vista o sistema parece ingênuo e até utópico. Mas sua criadora, Cynthia Typaldos, uma experiente desenvolvedora de softwares e iniciativas comunitárias na Web, conseguiu atrair a atenção de quase todos os executivos de comunicação numa apresentação que ela fez do projeto na
Public Media Conference, agora em fevereiro, em Atlanta, na Georgia (EUA).

O lançamento do Kachingle acontece num momento em que a discussão sobre a sustentabilidade de projetos jornalísticos na Web norte-americana tornou-se o tema de quase todos os weblogs e páginas voltadas para a cobertura da crise na imprensa dos Estados Unidos.

O modelo desenvolvido por Cynthia Typaldos baseia-se na combinação de um software relativamente simples com tendências comportamentais dos consumidores de notícias na Web. Esta é a grande incógnita do projeto, porque seu sucesso vai depender basicamente da capacidade de captar atitudes dos internautas e adequar-se a elas.

A esmagadora maioria dos usuários da Web em todo mundo segue a cultura da gratuidade, principalmente em matéria de notícias. É uma conseqüência da avalancha informativa que criou uma sobre-oferta de informações, o que reduziu o seu preço a quase zero, seguindo as leis clássicas da oferta e da procura.

Isto criou um dilema para as empresas jornalísticas e também para os weblogs individuais. As empresas já não têm mais dúvidas de que devem investir na internet porque ela é o ambiente para a circulação de dados, fatos e notícias. Mas elas não conseguiram desenvolver até agora nenhuma fórmula capaz de conciliar a avalancha informativa com sustentabilidade financeira.

A criadora do Kachingle admitiu que seu projeto visava inicialmente oferecer uma alternativa financeira para os weblogs, sem ter que obrigar os usuários e fazer dezenas de assinaturas ou passar pelo aborrecimento de pagar por cada página que chamar a sua atenção. Está má vontade ficou clara com o fracasso dos projetos de micro-pagamento feitos por jornais como o The New York Times, que abandonou, após sete meses de experiências, a cobrança para a leitura de seus cronistas especializados.

A iniciativa ganhou as manchetes dos sites especializados depois que os jornais passaram a vê-la como uma opção também para a grande imprensa online.

As pesquisas recolhidas por Cynthia Typaldos, ao longo dos seus quase 15 anos de trabalho com projetos comunitários na Web, indicam que os usuários aceitam pagar por aquilo que consideram importante desde que o custo seja razoável e que o pagamento não seja uma operação complicada.

Os internautas retribuem financeiramente as iniciativas com as quais eles se identificam, como ficou materializado nos resultados surpreendentes na coleta de fundos nas campanhas eleitorais de Howard Dean e Barack Obama, em 2004 e 2009, respectivamente.

O Kachingle é um aplicativo baseado também na teoria do crowdsourcing. O valor médio das contas de cada usuários deve ficar em torno dos cinco dólares por mês, segundo estimativa de Cynthia. O valor recebido por cada página visitada pode ser estimado em centavos, mas se levarmos em conta que a tendência é o crescimento exponencial no número de pessoas conectadas à Web no mundo inteiro, a soma dos centavos pode alcançar valores expressivos.

O pagamento é voluntário e o acesso à página não está condicionado a nenhum tipo de contribuição. Se adotarmos a lógica usual, fica difícil acreditar que as pessoas paguem por algo que podem obter de graça. Mas o comportamento dos usuários da Web não pára de gerar surpresas que contrariam todas as rotinas e valores tradicionais. O Kachingle aposta nesta perspectiva.